
Está chovendo lá fora... E é noite.
Da janela desse quarto eu posso ver e ouvir tudo.
O som da TV ligada na sala, uma conversa trivial no apartamento a lado, uma música distante em mais alguma festa adolescente, o som dos pneus dos carros em contato com o asfalto molhado... Posso ver a chuva caindo forte alagando as ruas, as pessoas apressadas a fim de se proteger, os carros todos fechados para que a chuva não molhe seus interiores.
Tudo parece tão... Previsível e infinitamente pedante.
Tudo ao alcance da mão... Mas nada desejável o suficiente.
Porém, no âmago do meu ser, eu reconheço a existência de algo desejável: VOCÊ!
Algo desejável, mas que não está ao meu alcance direto. Algo que despertou o imprevisível em mim. Algo que definitivamente não é nada pedante.
Com o mundo ainda girando lá fora, eu continuo a observar a fina camada de chuva que molha o vidro da janela por fora. O pensamento longe, atravessando as muitas ruas que nos separam, a grande distância que impede de tocar-mos um ao outro. O pensamento viaja até você, mesmo sem conhecer o caminho certo. Mesmo sem um mapa para guiá-lo... Mesmo assim, ele viaja até você.
E te busca entre a chuva, entre as ruas alagadas, entre os rios transbordantes, entre as outras existências que pouco significam para mim.
Ele viaja e te encontra, mesmo que incoscientemente. Ele te acha e te toca em meu lugar, te vê em meu lugar... Te tem em meu lugar.
Os olhos se abrem e eu olho para fora. Ainda chove pela janela... Eu havia dormido.
Mas tudo foi tão real... Será que você também pôde sentir?



